Todo o amor que couber na sua geladeira

03/10/2016
Postado por Convidado

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Pessoas comprometidas costumam dizer, de forma jocosa, que quando eram solteiras tinham a emoção de ir a campo para arranjar um parceiro e trazer a “comida” para casa.  Agora, em um relacionamento estável basta abrir a porta da geladeira que se tem tudo à mão para as necessidades do dia e que isso pode ser muito chato. Metáforas a parte, é óbvio que o desejo ao ser investido em uma relação estável perde o seu caráter provisório, efêmero e porque não dizer selvagem. Quando isso acontece, parabéns significa que você está apaixonado e, sejamos francos, poucos trocariam de verdade essa sensação psicótica de aconchego mútuo, essa completude imaginária, pela antiga emoção das “caçadas”. Nelas, por vezes, não se pegava nada, por outras, se voltava para casa com um esquilo magro, uma pequena lebre, nada de muito nutritivo de verdade. Porém, um belo dia, acertamos algo que vai nos alimentar, não apenas por um ou dois dias, mas por tempo indeterminado e que jamais nos deixará famintos novamente. Alguém que nos morde a carne de forma profunda, que nos faz gritar de dor e desejo e cuja falta provoca uma dor absurda no corpo e na alma.

Sim, todos nós sabemos que o amor romântico e exclusivo é uma construção cultural fadada ao fracasso, válida por um determinado tempo, mas que não resiste às duras provas da realidade e da convivência. Nada disso exclui, porém, a ilusão do apaixonamento e a intensa mágica que um verdadeiro encontro propicia. Como a raposa falou ao pequeno príncipe, ambos eram iguais em uma multidão imensa até que certo encantamento mútuo os diferenciou, quando um cativou o outro e o elegeu diferente, único e seu. Não pretendo com isso ser ingênuo e pueril, até mesmo porque o principezinho é bem menos bobo do que parece aos que verdadeiramente o leem. Ele sabe, no fundo, que tudo é certamente uma grande mentira e mesmo assim se entrega a ela porque o barato que isso causa é muito bom.  Percebo agora que usei os termos “mentira” e “ilusão” e acabei caindo em uma armadilha banal. Então, para além das aparências existe uma “verdade” que se insinua nos interstícios de ambos e lentamente, com o passar dos anos destrói todo e qualquer encantamento?

Não propriamente. Em relacionamentos saudáveis uma mentira vai substituindo a outra e assim sucessivamente pelo resto da existência. A mentira do que eu sou e a mentira do que você é, constrói essa nossa doce ilusão da realidade a dois. O que acaba com o desejo é justamente a mania de verdade que alguns teimam em procurar, colocando a si e ao outro em risco. É tão absurdo quando nos damos conta do que somos, o que estamos fazendo e como estamos vivendo que é bem melhor e mais saudável se abster dessa ascese mística mixuruca, popularmente conhecida como DR. Como bem falou Nietzsche, quando você olha muito fundo para o abismo ele também acaba olhando para você e é nessa troca de olhares que se insinua o trágico. Procurar uma grande verdade no sagrado horizonte das aparências é constatar que estamos sendo irremediavelmente enganados. No entanto, nada disso responde a questão do que fazer quando a nossa geladeira parece ser um móvel metafísico, surreal e incômodo abandonado no fundo da cozinha a qual nos lembramos em nossos momentos de privação e fome.

Não há o que fazer senão abri-la. Está vazia e te provocando uma carência absurda? Pior, está abarrotada, te dando um sentimento preguiçoso de saciedade? Pior ainda, está suja, fedida e cheia de coisas podres te causando repulsa? Não é tão fácil quanto parece. Esse texto chega ao seu fim sem a menor pretensão de responder o que quer que seja ou dar bons conselhos para a resolução de conflitos.

Apenas me parece que, sendo a geladeira essa metáfora do nosso desejo, em primeiro lugar se certifique de que ela esteja funcionando a contento e depois veja lá o que vai colocar dentro. Melhor que esteja mais para vazia do que cheia. Jamais mexa naquele pote no qual seu nome não está escrito se quiser evitar aborrecimentos. Que se limpem periodicamente as partes plásticas e que se evitem substâncias tóxicas de alimentos vencidos. Que se congelem algumas coisas e outras se coloque fora. Volte para as savanas se quiser mais emoção, ou descongele seu bife na paz de um sorriso complacente e fraterno.

Todo amor e todo o desespero do mundo certamente cabem na sua geladeira, de resto são apenas fragmentos, sonhos de uma mente fértil que se desespera pelo que não tem e pergunta de forma perplexa e inútil sobre um suposto sentido em tudo isso.

Texto enviado pelo convidado Cláudio César Dutra de Souza.

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