Soco cruzado

07/08/2017
Postado por Convidado

Logo cedo surge no WhatsApp a mensagem de uma amiga lamuriando o fim do relacionamento. Era mais uma dessas uniões que começam como um verdadeiro conto de fadas, o famoso “Efeito Walt Disney”: no meio de uma festa a moça desastrada sem querer derruba um pouco do drink no rapaz, os dois riem da situação, trocam telefones, se encontram dias depois para tomar um café, descobrem trezentas afinidades e começam um romance como pinguins apaixonados.

Mas a vida está mais para cinema francês do que para o hollywoodiano.
Tragédias ácidas de nossas vidas.

A moça descobriu que o hobby do rapaz era o “serial cheating”, traições na calada da noite. Terminaram.
Ela ficou mal. Agora crê piamente que jamais achará alguém parecido (nas partes boas do relacionamento) com o dito cujo.
Uma luta psicológica em que ela levou o primeiro cruzado.

Curiosamente no último sábado participei justamente de um treino de cruzados e defesa. O primeiro exercício era fazer 300 repetições de frente para o espelho. É preciso aprender o movimento.

No segundo exercício o mestre deu o briefing: eu deveria treinar a defesa com o cotovelo enquanto meu brother de 1,90 com o braço do tamanho de uma peça de mortadela me esbofeteava com cruzados. Uma distração e ficaria com a têmpora doendo 2 semanas.

Enquanto isso, nosso outro brother, o João, iria para o saco de pancadas treinar os cruzados.

Começamos e eu estava feliz que havia aprendido o movimento decentemente.
Eis que o mestre começa a gritar:

– Porra, João, bate com vontade! Usa a força, solta a mão, é a hora de pensar em todos os estresses da vida!

Dava pra ouvir João batendo mais forte no saco de pancadas.

– Pensa no teu chefe!

Ouvia João batendo ainda mais forte…

– Lembra da tua conta bancária! – berrava o mestre.

Uma pancada sonora.

– Pensa na última ex-namorada e o cara que está com ela! – gritou mais alto ainda

João cai em gargalhada.
Meu instinto me leva a olhar para tentar entender.
Levo uma pancada na têmpora.

João continua gargalhando e clama:

– Pô, mestre. Se fosse há uns meses atrás até teria raiva, agora acho é graça da situação…

João teve ataques de riso durante o decorrer do tempo. A prova de que as percepções mudam.
Minha têmpora está doendo até hoje. A prova de que viver o presente é mais importante do que prestar atenção no passado.


Texto enviado pelo convidado Phillipe Freitas.

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