Sem título

20/02/2018
Postado por Denis Araujo

As páginas do meu diário estão mais espaçadas. Me deparo com trechos sem palavras, entre uma terça chuvosa de cerveja com papo quente e o final de semana que teima em chegar. Percebo que linhas ficaram em branco nesse papel de caderno Cicero que ganhei de aniversário no ano passado. Às vezes penso que deveria me dedicar mais a ele, talvez escrever uma frase de mais impacto, um pensamento que tive quando comprava cereal pra manhã seguinte ou um sonho que tive na noite passada.

Mas a verdade é que escolhi viver os momentos com uma intensidade que a caneta não acompanha. Percebi que meu peito te escreve versos e te presenteia em forma de pensamentos, de toque de mão, de beijo na madrugada, de gosto de café e aquele até logo que não quis dar.

Poesia nem sempre vira texto. Ou vou mentir que no teu lençol foi refrão, estrofe, início e rima rica? Assim mesmo, fora de ordem, sem contexto, sem regra, apenas dois querendo escrever algo novo. Não, não esqueço de como se escreve, aprendi com os livros que criei. Apenas prefiro fechar os olhos e lembrar com frio na barriga dos nossos encontros – algo que o papel não registraria jamais. Gosto de como você foi se encaixando no meu dia entre o bom dia e o boa noite. Do gole de vinho, do beijo na nuca, do cheiro, do toque. Perfume, flores, música e algo que tem um gostodeseiláoquê bom. E que fica.

Que fica em mim, na minha roupa que derrubei pelo quarto e que misturou com as tuas do pé da cama a entrada do coração. E beijo sorrindo. Quase dente no dente de vontade de entrar um na alegria do outro. E vai ver sua alegria tem sido a mesma que a minha. E vai ver quando falam que somos todos infinitos, uns infinitos são realmente mais parecidos que outros.

E, quem sabe, nosso infinito possa caber nessa concha de olhos fechados, de sorriso de canto de boca, que faz ficar bem. E faz ficar. De te abraçar, de sentir abraçado, de arrepiar, voar e ali pousar, entre a linha dos teus ombros nus e o gosto dos meus lábios. Traz tua paz pra perto da minha, fica mais um pouco entre tua pele arrepiada e minhas mãos que querem percorrer todas as tuas exclamações. O dia está amanhecendo lá fora e tem amanhecido aqui dentro também.

Bom dia, hora de ir.

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