Sem máscaras

24/01/2017
Postado por Denis Araujo

Oi, me chamo João. Tenho vinte e oito anos, sou do interior de São Paulo, mas vim morar na capital na época da faculdade. Eu nunca gostei de faculdade, confesso. Mas meus pais achavam que era algo importante, que eu poderia ser alguém se a fizesse. E fiz. Administração. Quatro anos em sala de aula. Quatro anos de festas. Quatro anos de ressacas. Quatro anos conhecendo gente incrível. Quatro anos conhecendo gente insuportável. E os trabalhos em grupo? Odiava todos. Isso quando não queriam armar um churrasco de reencontro. Nunca fui em nenhum. Não é pra mim. Nunca foi.

Trabalho? Sim, eu trabalho. Ah, você quer saber o que eu faço no meu trabalho. Eu trabalho em uma agência de publicidade. Por que brilhou seus olhos? Não é tão bonito assim, confesso. Isto é, gosto dos momentos no café com os amigos que fiz. Os happy hours também são bons. Tem um cliente de uma marca de cerveja que eu adoro, esse sim me desafia, pede textos legais. Ah, não te contei. Eu sou Redator. Redator-chefe desde ontem, mas não me acostumei com o chefe ainda. Só com o Redator. Esse sim eu já me adaptei. Não, não é que eu goste. Mas paga minhas contas. Meu Netflix, meu Spotify, minha academia que não vou e meu aluguel. Desanimado, eu? Não. É que ainda não tenho dinheiro pra fazer o que eu quero fazer da vida. O que é? Eu queria produzir vídeo-clipes para as bandas de rua que tocam pela cidade.

Quanto eu ganharia? Mas por que isso importa nesse momento? Acho que minha alma se encheria tanto de amor que pouco importa se meu bolso não tivesse um tostão furado. Isso ainda não é uma realidade. Mas quem sabe um dia seja, não é? Não (risos). Não sou maluco.

Sim, já namorei. Quatro vezes. E por que não deu certo? Mas quem disse que não deu certo? Deu sim! Quatro vezes. Não, nunca me casei. Se eu já quis? Acho que com alguma delas sim. Mas a recíproca não era verdadeira. E tudo bem. Foram bons namoros, foram bons episódios que deram certo. Hoje não procuro compromisso. Pois é. Não conheço alguém pensando que vou namorar, me casar e ter filhos. Mal sei o que comerei amanhã, que dirá me envolver desta forma. Frio? Acho que sou um pouco. Não por mal, mas gosto quando as coisas fluem naturalmente. Sem expectativas, sem exageros. Apenas existir, sabe?

Pânico. Sim, pânico. Você me perguntou do que tenho medo e é isso. Tenho medo de ter outro ataque de pânico. Certa vez peguei o metrô lotado e houve um acidente em uma plataforma. Estava trabalhando muito naquele tempo, tinha acabado de terminar um relacionamento e brigado com meus pais. Suei frio, o coração disparou. Pensei que fosse desmaiar naquele chão frio de fim de noite em São Paulo. Hoje estou bem, tomo meus remédios pra ansiedade e sou um novo homem. O médico disse que eu deveria fazer mais academia e me distrair mais, quem sabe me dedicar ao que amo: filmar os artistas na rua da capital. Quero fazer mais isso, está na lista de desejos para o ano. Também está na lista viajar mais, acho que fiz isso muito pouco no auge dos meus vinte e oito anos.

Carro? Não, não tenho. Não tenho dinheiro para um.

Mas falei muito de mim até aqui. E você? Me fale de você. Claro, fique a vontade para tirar esse crachá do peito. Parece que pesa. Você sonha em ser bailarina? Que incrível! Me conta mais.

Claro, pode atender seu telefone. Ah sim, entendo. Ex-namorado é complicado às vezes. Três semanas que se separaram? Entendo, parece recente. Ele não quis? Saquei, terminou porque você procura algo mais sério. E confiar nas pessoas é algo difícil? Posso imaginar.

Minha última namorada me deixou para ficar com outra pessoa. É, ela me traía e só descobri tempos depois. Pois é, doeu bastante na época e tenho medo de relacionamentos por isso. Vai ver é por isso que eu não passo do terceiro encontro com ninguém.

Você costumava trair seu marido? Na cama não tinha sintonia? É, deve ser difícil levar uma vida conjugal dessa forma.

Quer outro café? Claro, eu também topo. Insônia é complicado, dormi apenas três horas na última noite. Também tenho. Rivotril?

Me conta mais.

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