Se soubessem

23/08/2016
Postado por Denis Araujo

IMG_0777_denis

Ah, se ela soubesse. Se ela soubesse que toda vez que nos encontramos sinto um calor diferente, desses que não sinto por aí. Se ela soubesse que meus olhos procuram os dela no meio de todo aquele papo com tanta gente na sala. Mas ela sabe. Ah, sabe. Seus olhos procuram os meus quando sabe que a estou olhando, enquanto não tem mais ninguém vendo. Ela sabe que pegamos fogo juntos, quando nos abraçamos e nossos rostos se encontram num beijo estalado entre amigos. Ainda que de mãos entrelaçadas com outros, ainda que querendo nos entrelaçar.

Ah, se ela soubesse que toda vez é assim. E ela sabe. Sabe porque sua pele encosta na minha quando nos cumprimentamos. Nos arrepiamos e entramos em ebulição, sozinhos na nossa consciência. Não dá muito para explicar, eu sei, mas é assim que me sinto quando estou em sua presença, quando arrancamos as roupas e os sorrisos um do outro naquele quarto de hotel na Avenida Paulista. Naquele mesmo, entre a hora do almoço e a hora do rush da cidade, cravados na agenda como uma reunião no cliente que nunca acaba. E que pena que acaba.

E ah, se ela soubesse. Se ela soubesse que olho para outra enquanto andamos de mãos dadas nessas festas que nem quero estar, com essas pessoas que, de verdade, não gostaria de ver hoje. Se ela soubesse que quando não volto pra casa cedo é porque estou com outra, ao invés de estar numa reunião cravada na agenda com o cliente que foi até tarde e não acabou tão cedo. Se ela soubesse que esses dedos entrelaçados com os meus já não me despertam mais, enquanto o rosto da outra só de me encostar faz com que eu exploda em mil alarmes de incêndio!

Ah, se eles soubessem. Nossos amigos que convivem conosco nos veem sorrindo desta forma e sequer imaginam as lágrimas que percorrem meu peito por dentro. Que enquanto brindamos à vida com taças, em casa ficamos distantes como dois desconhecidos. Que aqui enquanto a vejo passando e sinto fogo por dentro, estes dedos que entrelaço já não me fazem mais sentir o calor da vida de outrora. Desanimado, sim. Desanimador, eu sei. Sei?

Ah, se nós soubéssemos. Se tivéssemos consciência real do que estamos fazendo, vivendo entre mentiras, omissões e prazeres escondidos. Escondidos. Como é bom fazer alguma coisa quando não tem ninguém vendo. Como é bom romper a barreira da “vida perfeita” e experimentar, ainda que por algumas horas, o que é perfeito numa vida já sem perfeição alguma.

Ah, se eu soubesse. Se eu soubesse respirar fundo, ouvir a razão e agir de forma mais responsável, talvez não estaria suando frio nesse momento, enquanto entrelaço os dedos com uma mulher e vejo outra indo embora com ele, o de sempre. Mas quem irá dizer que não existe razão? A paixão, o amor, o desejo e a confusão, muitas vezes, caminham juntos. E nesse caminho todo, já me perdi.

Os textos deste site pertencem exclusivamente aos seus autores e estão protegidos por copyright. É proibida a cópia integral ou parcial do seu conteúdo, sem a autorização prévia do autor, mesmo que citando a fonte.

Deixe seu comentário: