Romance Passageiro

31/05/2016
Postado por Denis Araujo

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Ei garçom, por favor, gostaria de uma cerveja gelada, uma dose de bom senso e tempo como aperitivo! O seu tempo. Quero lhe contar sobre como eu estava para me casar e não casei. Sobre como deixei escapar o amor da minha vida por entre os dedos mais uma vez. A respeito de quando a vida nos dá uma rasteira e nos tira a melhor de nossas oportunidades.

Linda de fora a dentro, de dentro para fora. Olhos de mel, de se perder e morrer afogado dentro deles. Lábios que dão vontade de morder para sentir o gosto da alegria e da doçura. E quando ria… Nossa! Ria com graça, de graça, dando graças e fazendo rir até quem não ria com ela. Eu ria. Eu sorria. Eu percorria a linha tênue que dividia seus pensamentos dos meus, entre o celular que ela verificava vez ou outra e o livro que eu fingia ler. Mas não fingia mal. Realmente me perdia entre as palavras de Machado de Assis e os versos do seu cabelo enrolado ao entrelaçá-lo entre os dedos feito poesia.

Poesia nossa. Letras que contam sobre as aventuras que não vivemos, das vezes em que não nos abraçamos com carinho e com paixão. Refrões nossos, sobre como nos perdemos entre a estação da timidez e a parada da ilusão. Como música, nossa canção, aquela que não tocava nos nossos fones de ouvido ao mesmo tempo. Como perda. Como quando achei que tocaria sua mão e ela sorriria para mim com ternura. Ou como quando pensei em pisar em seu pé e ela, de maneira educada e elegante, diria que tudo estava bem e que tudo parecia melhor já que nossos pares de tênis finalmente se tocaram.

Se eu tentei simplesmente lhe dar um oi? Claro que sim! Ontem mesmo, quinta-feira pela manhã, nos vimos mais uma vez. Respirei fundo e esbocei meu melhor sorriso em sua direção, mas ela resolveu amarrar os sapatos na mesma hora. “Por que os sapatos desamarram quando a gente menos espera?”, pensei. Mas ela se foi. Outra vez. E mais uma vez. Ontem estávamos próximos a porta do vagão. Anteontem estávamos juntos na plataforma aguardando o próximo trem. Entre tantas pessoas correndo ansiosas, procurava seus olhos com calma para que, de repente, seus olhos procurassem os meus.

Vai garçom, me vê uma garrafa de esperança e uma dose de “toma jeito!”. Quem sabe amanhã, no caminho para o trabalho, eu a veja de novo. E quando a vir entrando no trem do nosso amor, eu lhe acene com boas intenções.

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