Pra te falar

26/03/2018
Postado por Denis Araujo

Gosto de deitar e demorar uns minutos a mais para dormir. Teu cheiro ficou em mim, no meu travesseiro, entre os lençóis e peças de roupa que derrubamos – e que, de preguiça, resolvo não recolhê-las. A hora teima em não ficar ao nosso lado e a cada minuto de atraso de rotina é uma hora ganha no trilho de nossas vidas. Respiro fundo para recolher no ar a lembrança do teu gosto, do teu calor e do teu ser.

Somos de caminhos diferentes, eu sei. Rotas, roteiros e um mapa inteiro desvendado de mãos separadas. Mas, quando estradas querem seguir ao mesmo lugar, nada se atreve a detê-las. Fez sol quando nossos caminhos se cruzaram, fez chuva lá fora quando nos abraçamos e fingimos esquecer de todo o resto. A cada beijo, um trovão em mim. A cada aperto de mão pelas ruas de verão, um sorriso no teu rosto.

E tenho encontrado sentido no teu sorriso que encaixa com o meu, quando a ponta do nariz procura o pescoço e os olhos de mel se perdem na profunda escuridão dos meus.

E por falar em olhares, às vezes te admiro torcendo para que não seja miragem. Te vejo dormindo segurando minha mão e fecho os olhos para não esquecer desse momento. Fez nota de samba no calor do meu peito, de roda, como gosto, de pagode, como você gosta. De afino desafino, de quando concordamos em discordar e o copo se enche outra vez.

E por falar em copos, encontrei em você um copo tão cheio quanto o meu. Nosso brinde não completa o que falta no outro. Não mesmo. Nosso brinde faz transbordar. Aqui não tem metade. Somos copos de boteco com cerveja até a boca que, quando se encontram, transbordam. Um na boca do outro, um no coração do outro. E nesse ritmo, ninguém se diminui pra caber no outro. Não mesmo.

Você ouve Leoni, eu ouço teu dia completo. Faço meu violão te dizer frases que somente as cordas conseguem. Te desejo boa noite querendo sonhar com teu carinho outra vez. Me encaixo na tua pele, vejo sua nuca arrepiar e fazemos poesia assim. Estrofes marcadas com nossas risadas, goles de vinho, palavras não ditas e vontades. Muitas vontades.

Não escrevo para me lembrar de você. Escrevo para marcar em papel de pão que, aqui, sim. Entre nós, sim. E se for miragem, faço arte num quadro pra pendurar na minha sala. Que história boa de viver.

Os textos deste site pertencem exclusivamente aos seus autores e estão protegidos por copyright. É proibida a cópia integral ou parcial do seu conteúdo, sem a autorização prévia do autor, mesmo que citando a fonte.

Deixe seu comentário: