Pra não tinderizar a vida

09/01/2018
Postado por Denis Araujo

Se eu pudesse apontar a nona maravilha do mundo moderno, diria Tinder. Sim, a nona, porque sabemos que Netflix é a oitava. Mas da mesma forma que esse aplicativo é uma maravilha, ele também é uma grande armadilha. Começa assim: primeiro você dá um like tímido e inocente, um dislike direto e objetivo. E quando percebe, estará colecionando matches com pessoas que sequer trocará duas palavras, tomará cerveja com gente que sabe que não te acrescenta e, certamente, irá pra cama com outras que não fará questão de ligar no dia seguinte.

E tudo isso para satisfazer esse estranho vazio que habita teu ser. E tudo bem. Acho que necessidades existem para buscarmos uma forma de saná-las. Mas e quando o sexo fácil vira vício e a falta de intimidade se torna uma rotina?

A armadilha está na superficialidade das relações. Viver isso é interessante (e muitas vezes necessário para este louco processo de se conhecer um pouco mais). Mas quando a superficialidade se torna um hábito, é bom prestar atenção. Afinal, se a cama está rasa, talvez o que está fora dela também esteja.

A quantas andam suas amizades, seus desejos e objetivos? Você gosta do seu trabalho e se sente feliz acordando cedo para ir até ele? E quanto de tuas profundezas você mostra às pessoas com quem se relaciona?

Claro, estamos todos com medo de nadar. O Tinder ajuda, e muito, a resolver a carência de quem não consegue se relacionar com mais troca e entrega. Já sofremos tanto que só de ouvir a palavra “namoro” vamos correndo para as colinas. Eu entendo, não é fácil. Mas tenho a impressão de que, sem as modernidades trazidas por aplicativos em aparelhos celulares, encarávamos nossos processos com mais pé no chão e menos máscaras virtuais.

Recentemente, me peguei pensando que, acordar ao lado de quem não quero mais ver, não tem me agregado em nada, apenas um par de orgasmos e nada mais. Estou longe de ser o louco dos relacionamentos, mas certamente sou louco por uma troca, por um maior envolvimento e, principalmente, por mais sentimentos. Gosto de me apaixonar e sinto que amar é a maior dádiva desta vida.

Por isso, se puder ficar um pouco mais, fique. Tem uma camiseta minha no armário. Adoro quando veste e volta pra cá. Nesse edredom cabem dois apertados. Deixa eu entrelaçar meus dedos nos teus, ouvir teu pesadelo e te contar que hoje a gente pode ir tomar cerveja no bar novo que abriu no bairro. Se chover, ainda não vimos Black Mirror até o fim. Vou fazer um café pra nós. Tem pão quente, tem beijo doce, abraço, afago e amor. Fica nessa morada que faço morada no teu peito.

Por mais vida na nossa vida.

Real, sem tela, só pele.

Só nós.

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