Não conta

07/02/2017
Postado por Denis Araujo

Fotografia: @denisaraujophoto

Como tem passado? Não, não me conta do seu dia. Não agora. Adoro vir te ver quando nada mais parece importar. Vamos tomar uma cerveja? Depois a gente pode tomar uma atitude, um banho, você me toma em seus braços, eu te tomo nos meus e aqui ficamos, de frente um para o outro, tomando o ar daquilo que parece maravilhoso, entre o certo e o duvidoso. Mas aqui não vamos perguntar nada, só viver. Me deixa morrer umas mil vezes hoje, me deixa perder o ar e o juízo com você. Não quero saber dos boletos para pagar e nem do teu signo que não se parece com o meu.

Agora sim me conta do seu dia e não do seu passado. Quero saber somente do que fez hoje. Me conta também do que te faz perder o sono? Eu já não durmo direito há tempos. Parece que foi quando tudo começou a desmoronar e você apareceu. Dizem que os grandes amores nascem, assim, nas grandes decepções. Eu não sei. Mas nós nascemos ali, disso eu tenho certeza.

É bom ter um ombro assim para contar, um amigo assim para abraçar, uma boca dessas para beijar, uma cama confortável para deitar e até mesmo nos teus sonhos viajar. A gente podia pegar um avião, vou de malas para o aeroporto agora mesmo ou amanhã. Na bagagem levo um par de roupas, um caderno para tomar nota dos nossos sonhos. Levo também uma mala sem cor ao meu lado, de cheiro de amor antigo e cansado, com naftalina de não-querer de saudade. Daquilo que deu errado em minha vida, tenho ainda uma bolsa que parece pesar duas toneladas. Tento não pensar nela, confesso. Porque toda vez que penso, perco o sono. E ela dorme ao meu lado todos os dias para que eu me lembre disso.

E se perco o sono, você me embala em um cansaço bom. Queria tê-lo na minha vida todos os dias, do acordar à prece de ir dormir. Quero dormir com você, acordar na sua boca, despertar no teu peito e morrer mais umas mil vezes, só para ressuscitar na luz dos teus olhos. Nem sei se deveria falar de preces aqui, porque quanto mais me ajoelho, mais rezo abaixo de ti.

Talvez toda essa confusão seja coisa minha. Talvez eu deva virar uma chave, quem sabe duas ou três. Talvez deva fechar a porta de todo mal que me causa. E se livrai-nos de todo mal amém, quero que seja ao teu lado. Eu só não sei que mal que me causa mais: se é o de perceber a ponta dos meus erros ou se é de sequer saber se me faço pior agindo desta maneira. Quero chutar essa porta, quebrar essa casa, me desfazer em cem pedaços e renascer na descida do teu pescoço, no calor da tua pele e no arrepio da tua nuca. Não, não me diga o que fazer. Porque eu seria incapaz de ouvir de ti o que é melhor para minha vida. Disso cuido eu e olha que eu mal sei amarrar meus sapatos.

Perdi a conta de quantas vezes penso em você quando estamos longe e trato de engolir tudo nos dias em que estamos perto, sem cuspir. A vida não me ensinou a vencer meus medos, é verdade, mas sei que gosto mesmo de tudo em nós e disso não posso fugir.

Só não conta pra ele.

Quero fazer de contas que no conto da minha vida estamos apenas você e eu. E que toda essa culpa que sinto desde que te conheci não se meta na minha história, que é desbotada sim, mas que ainda preciso carregar por onde vou.

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