Nada além do trivial

25/04/2017
Postado por Denis Araujo

“Opa, um match novo!”, pensei logo após abrir o aplicativo que todos os dias afirmo que vou deletar. “Isso não é pra mim”, digo. E de tanto que não serve pra mim, o uso todos os dias na volta pra casa após o trabalho. Vamos ver. Que sorriso bonito, acho que vou dizer isso. Não. Já usei essa. Tá na lista das minhas frases cansadas. Talvez um comentário sobre os olhos. Sim, os olhos dizem muito. E nossa, os olhos dela realmente me dizem algo. Profundos. Azuis profundos. O que mais temos? “Fã de How I Met Your Mother, estuda engenharia química, gosta de tomar cerveja e falar da vida”. É quase um espelho em forma de match.

E foi assim que a conheci em um aplicativo que quero deletar desde o começo do ano. Falei dos olhos, não teve jeito. Ela disse que já tinha ouvido aquela, mas que eu tinha falado de um jeito fofo de quem, a princípio, não estava pensando só em comê-la e ir embora. Eu ri. Será que todo mundo pensa isso? Não sei, mas gostei de sua sinceridade desde o início. Detestava beterraba, não suportava filmes 3D no cinema e diz preferir De Volta para o Futuro à Star Wars. “Aquilo sim é uma saga de verdade!”, bradava aos quatro cantos do meu celular.

Essa criatividade foi parar na mesa do bar de sexta-feira à noite pós expediente. Todos os casais da cidade pareciam querer uma mesa na calçada, mas resolvemos sentar lá dentro. “Tem ar condicionado”, comentei. E pareço tê-la convencido. Será que passei por fresco ou por sensato? Boa pergunta. O garçom aparece com o cardápio, mas olhamos um nos olhos do outro com a certeza de que o coração pedia algo mais original. “Moço, traz uma cerveja?”, ela disse. Suei frio. Será que ela podia ler meus pensamentos?

Adoro gente assim, sem papas na língua. “É mesa dentro do bar, é você aí e eu aqui, é cerveja gelada, é porção de amendoim e nossas cartas na mesa”. A carta dela dizia que tinha acabado um relacionamento há seis meses após ter sido traída. A minha dizia “recém divorciado há dois anos”. Afinal, nem sei quando é que a gente deixa de ser recém alguma coisa. Mas gostava do jeito dela pensar, eu nem era fã de Star Wars e era louco pra ter uma máquina no tempo.

Opa, a cerveja chegou, os copos se encheram e os olhos também.

Olhos de quem conversou a noite toda e mudou de lugar na mesa pra sentar juntinho. Enquanto o casal à nossa direita falava sobre signos e o da esquerda também, nós nos ocupamos em resolver quem era melhor no candy crush. Parecia bom demais pra ser verdade.

Fomos pra casa de Uber. Pra casa dela. Não, pra minha. Pra casa dela, não não, vamos pra minha. E de tantas interrogações sobre quem poderia mostrar sua coleção de lençóis primeiro, fomos parar num motel no meio do caminho. No quarto, brincamos obviamente de ver quem conseguia achar a melhor combinação de luzes pra refletir no espelho de teto mal colocado sob aquela cama.

E também transamos. E não foi pouco. Foi muito. Foi a noite toda. A madrugada inteira. Teve café da manhã na cama. Teve a gente dormindo de conchinha. Teve cafuné logo cedo. Teve carinho mais tarde. Passamos vinte e quatro horas juntos, entre afagos, risadas e levezas. Nada parecia importar. Fomos embora um do outro com alguma dificuldade de desenrolar os dedos e esquecer o perfume. Ela tomou o metrô, eu fui ao ponto de ônibus.

Tudo isso aconteceu numa sexta-feira do mês de Abril. O céu estava claro, não haviam nuvens lá no alto. Fazia uma brisa suave de outono, aquela meia estação favorita.

E eu nunca mais liguei pra ela. E meu telefone nunca mais tocou.

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