Nada além do trivial #2

02/05/2017
Postado por Denis Araujo

“Opa, um match novo!”, pensei logo após apertar X em todos esses homens sem graça que me aparecem por aqui. Na boa, de todas as ferramentas na vida, a última que pensei em usar era o Tinder. Mesmo. Sou do tempo do Orkut, das comunidades, dos depoimentos de ficar no topo, do “só add com scrap”. Lembro que eu tinha até uma comunidade com meu nome, minhas amigas que fizeram. Só que ultimamente não tenho conhecido ninguém. Vou em festas, mas os caras que chegam pra dançar comigo só querem saber de agir estupidamente, encostando em mim como se eu fosse algum tipo de propriedade deles ou coisa assim. E eu não quero isso pra mim. Eu não sou mais assim.

Mas minhas amigas me convenceram. “Baixa o app, você vai ver como é legal”. Aí vem a outra e me diz “vai que você conhece alguém e se apaixona”. Tenho vontade de vomitar quando ouço isso. Não é que eu não queira me apaixonar. Mas é que hoje estou no Tinder pelo simples direito de querer dar pra alguém. E só, sem satisfação, sem telefonema no dia seguinte. Hoje é só para me satisfazer e deixar alguém satisfeito. Minhas amigas acham que sou de escorpião, mas não é o signo que conta. É minha vontade, minha necessidade. Minha carência… E opa, que sorriso bonito desse aqui. Que legal, ele também gosta de séries, se amarra num sofá com Netflix, prefere café a cerveja e acha que Oasis é melhor que Beatles.

E foi assim que o conheci em um aplicativo que entrei querendo encontrar alguém minimamente interessante para curtir. Ele tem um jeito engraçado de escrever, disse que tenho olhos bonitos. Pff, sempre meus olhos. Nunca minha boca, nunca meu pensamento, nunca meu cabelo ou a ponta do meu nariz. Ainda tenho certo medo de ele me confundir, não sei chegar no boy e dizer “oi, quero dar pra você sem compromisso”. Mas vamos ver até onde isso vai. O papo é interessante, isso me conquista. Uma boa conversa, gente que sabe conjugar bons verbos, gente que não quer saber de ficar olhando pra tela de um computador de segunda a sexta e, principalmente, gente que não me pede nudes. Sério. Não me peça um. Nem dois.

De tanto que falamos na madrugada, essa conversa foi parar na mesa do bar de sexta-feira à noite pós expediente. Todos os casais da cidade pareciam querer uma mesa na calçada, mas resolvemos sentar lá dentro. E que bom que ele quis sentar lá dentro. Se tem uma coisa que eu não gosto é de sentar perto da galera fumando. Detesto cigarro, tomara que ele não fume. E por favor peça cerveja. Cerveja. Só cerveja. Não peça mais nada. Outro dia saí com um rapaz que perguntou se eu queria uma caipirinha, disse que cerveja era coisa pra homem. Quase mandei ele enfiar a bebida no cu. Dessa boca ele não beijou, o encontro acabou em quarenta minutos.

Já esse não, parece gentil. Adoro gente assim, sem papas na língua. “É mesa dentro do bar, é você aí e eu aqui, é cerveja gelada, é porção de amendoim e nossas cartas na mesa”. Terminei um relacionamento há seis meses e eu digo na lata. Tenho minha bagagem emocional, todos temos. Ele tem a dele e tudo bem. E conversamos a noite toda. Há tempos não tinha um papo tão encaixado. Enquanto o casal à nossa direita falava sobre signos e o da esquerda também, nós nos ocupamos em resolver quem era melhor no candy crush. Tudo bem que ele podia deixar esse celular um pouco de lado e pegar na minha nuca, desse jogo gosto mais. Mas acho um charme esse jeito de barba por fazer, deixo tudo pra hora que tiver de acontecer.

Fomos pro motel de Uber e paguei, prefiro. Me mantenho distante de caras que usam carro como se fosse uma extensão do próprio pau. Chegando lá, tinha luz pra piscar, tinha espelho pra olhar e cama pra se jogar. Parece óbvio, mas gosto quando as coisas rolam aos poucos. Meu corpo não é piscina de bolinhas pra se jogar assim que vê. Não. Gosto de pegada leve, calma, que ferve aos poucos como panela no fogo.

Parecia tão leve para ser verdade. E de leve, no fim, não tinha nada. A transa foi boa, pra valer. Mas querer deitar agarradinho não é comigo. Tudo bem vai, copo de água e conchinha não se nega a ninguém.

Tudo isso aconteceu numa sexta-feira do mês de Abril. O carnê estava atrasado, mas eu queria sair de novo no sábado. Vê-lo naquele dia me deu um ânimo pra aproveitar melhor meu final de semana. Só espero que não me ligue. Vamos deixar tudo como aconteceu. Nos cruzamos numa noite, foi bom, beijos, tchau.

E opa, outro match!

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