Mudança

19/04/2016
Postado por Denis Araujo

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O relógio marca quase sete horas da noite e ainda estou aqui em casa guardando todas as minhas coisas nas caixas da mudança. Já embalei os quadros que ficavam na parede, os dvds que repousavam na estante, meu violão e minhas roupas. Já encaixotei minha coleção de copos de cerveja, todos os livros que li durante o ano e minhas camisetas de rock. Mas não poderei levar tudo comigo. Seu cheiro vai ficar aqui nessas paredes, junto com o perfume que deixou na saudade do teu abraço. Assim como o som da sua risada que ecoava pelos cantos da casa e que você tentava abafar com as mãos com medo de incomodar os vizinhos.

Como se incomodar os vizinhos fosse um problema para nós, que esquecíamos a janela aberta e nos entregávamos com tudo que habitava entre a curva do teu ombro e o arranhar na minha nuca. Mas tudo bem, já faz um tempo que você não anda por aqui. Acho que a última vez em que te vi foi naquela noite, encostados na janela do quarto, dividindo uma garrafa de vinho e nossas reclamações daquele mês cheio de contas para pagar e desilusões amorosas. Na verdade, não lembro quem se aconchegou no peito de quem, afinal você já veio cuidar de mim em tempos difíceis também. Nunca irei esquecer de todas as histórias que compartilhamos com os vidros abertos, em que confundíamos amizade com algo a mais e nunca fomos capazes de dizer um ao outro.

Mas tudo bem, porque nunca faltou amor aqui entre nós, ainda que ficasse nas entrelinhas de uma música simples na caixa de som. E embora você diga que essa distância seja algo normal, sinto que a janela nunca mais foi a mesma sem você por aqui.

Amanhã, essa paisagem vai mudar. Esses prédios darão lugar a outros, estas luzes vão piscar em um céu diferente. Queria poder levar essa janela comigo, mas não posso. E acho que muitas vezes o amor é isso: uma janela que fica e a gente admira, mesmo que de longe. Como uma história de cortinas abertas, em um céu de pôr do sol cheio de linhas em branco sem continuação. Como uma lembrança boa, torcendo para a felicidade do outro, com novos brindes, pessoas e histórias. Assim mesmo, numa distância normal, como no fim de um contrato de aluguel, como no fim de um abraço, como no começo da saudade.

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