Minha primeira vez na depilação a laser

30/03/2015
Postado por Marina Barbieri

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Se tem uma coisa que eu odeio nessa vida é pelo indesejado. Odeio! Odeio forte! Odeio muito! Muito mesmo!

Não que eu seja a amiga ursa da turma. Não sou. Poderia ser pior, é claro. Eu poderia ser a mulher barbada, mas nem por isso estou tranquila em viver escrava do gilete ou da cera. Pensando nisso, um belo dia resolvi seguir as recomendações de mamãe e visitei a clínica estética que ela fez depilação a laser e há anos me enchia o saco pra fazer também.

É caro. Já aviso logo, pra quem possivelmente tenha interesse, que essa porra custa o preço de um órgão em bom estado. Mas todas as moças da clínica me garantiram tanto que valia a pena, que sem pensar muito, fechei logo um pacote com 10 sessões e parcelei em tantas prestações que até a Casas Bahia se surpreenderia.

Escolhi começar pela virilha. Depois eu faria o resto. Axilas, meia perna, buço, e aí o céu seria o limite. Imagina poder depilar quase que para sempre o corpo inteiro? É caro, mas com o tempo dá pra fazer tudinho. Ah, que demais! Estava empolgadíssima!

Resolvi fazer a minha primeira sessão naquele dia mesmo. Pra quê esperar? Estava com uma calcinha apresentável, já que mamãe, a nazista das calcinhas, mesmo não morado mais comigo faz questão de ir na minha casa só pra jogar todas as minhas calcinhas fora que não estejam impecáveis.

Fui com a esteticista Raíssa para o segundo andar. Moça simpática, sorriso grande, branquíssimo, e voz calma. Toda esteticista parece um poço de calma e bondade, né? Queria levar ela e todas as outras da clínica pra casa. Uns doces de meninas.

Entramos numa salinha pequena, com uma maca, umas prateleiras e um aparelho gigante que eu só consigo comparar com uma junção de caixa eletrônico com bomba de posto de gasolina. Era algo tipo isso:

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Raíssa, sem nenhuma cerimônia, me pediu para tirar a calça e foi logo me entregando uma espécie de óculos totalmente preto. Me senti a protagonista de 50 tons de cinza. Daqui a pouco Raíssa tiraria um chicote, uma roupa de couro e eu descobriria que errei a porta da clínica e entrei numa casa de swing por engano.

– Vamos com calma! É a minha primeira vez. – falei tentando disfarçar todo o meu nervosismo.

Raíssa deu um sorrisinho nitidamente constrangida da minha piada de merda e me pediu pra deitar. Perguntou o quão cavada eu  queria e eu respondi que quanto mais cavada, melhor. Esse foi o meu segundo grande erro do dia. O primeiro foi ter saído de casa.

Raíssa amarrou a frente da minha calcinha com um barbante, deixando toda a xoxota de fora. Não era mais fácil ter me pedido pra tirar a calcinha?

Tive então que botar os óculos que não me deixavam ver absolutamente nada, e olha, não tenho palavras para descrever o quão aterrorizante é saber que tem alguém segurado um aparelho em forma de pistola, apontando para a sua xoxota e você nem ao menos poder enxergar o que aconteceria depois.

Respirei fundo e quando eu começava a me acalmar, tive a descoberta mais triste da minha vida nos segundos que se seguiram:

Minha mãe me odeia!

Aquilo dói pra ca-ra-lho!Como uma luzinha safada pode causar tanta dor? E que tipo de mãe deseja tamanha dor para sua própria filha?

Raíssa também me odeia, e ela havia acabado de me conhecer. O que eu fiz para o mundo me odiar tanto???

A sensação é a de que estão enfiando várias agulhas na sua pele ao mesmo tempo. Como uma tatuagem. Só que numa região em que tatuagem nenhuma deveria nunca ser feita.

Percebia que as agulhadas que começaram na virilha, iam se aproximando cada vez mais para o centro da xoxota. Questionei Raíssa, que com a resposta na ponta da língua, disse:

– Mas você pediu bem cavada.

Não sabia que “cavada” significa “buceta”, mas quem tá no inferno abraça o capeta, né? Não incomodei mais Raíssa, que aliás, posso jurar que chegava a sentir prazer com a minha dor. Aquela vozinha plácida e calma não me enganava mais não. Raíssa era mesmo uma psicopata, o anticristo da depilação. Ela sorria. Eu sei, mesmo sem conseguir enxergar, que ela sorria.

Depois de passar os piores minutos da minha vida, quando já achava que a minha agonia havia chegado ao fim, Raíssa, calmamente, me pediu para virar.

– De ladinho. – disse.

Oi? Como assim? A última pessoa que me pediu pra virar de ladinho ao menos me pagou um jantar antes. 

Mas ok, deitei de ladinho e nessa hora só restou a mim, que nem cristã sou, rezar. Rezei com mais afinco do que qualquer fiel na igreja. O que, infelizmente, de nada me ajudou.

Raíssa me pediu para segurar uma das bandas da bunda e fui aos poucos entendendo que aquela era mais uma armadilha secreta do clã das esteticistas do mal. Em seu vocabulário, desconhecido pelo resto da humanidade, “cavada” além de significar buceta, significa também cu. E se já era doloroso na xoxota, no cu era de querer morrer.

Naquele momento, Raíssa era a pessoa que mais me conhecia. Era a pessoa que havia explorado terras antes desconhecidas até por mim mesma. Tanta intimidade que foi até estranho eu não ter me apaixonado.

E por que mesmo eu fazia isso? Não importava mais o motivo, com certeza não valia a pena. Cara, eu namoro! E homem tá nem aí pra depilação. Se não estiver Claudia Ohana, eles estão achando tudo lindo, maravilhoso. Meu namorado não vai abrir a minha bunda e conferir com uma lupa como anda a minha depilação anal. Ele não está nem aí pra isso! E naquele momento, enquanto eu segurava a minha bunda para uma estranha jogar um doloroso laser, não conseguia achar um bom motivo para ter acreditado que aquilo poderia ter sido uma boa ideia.

Quando a sessão de tortura acabou, vesti minha calça correndo e me apressei para a porta de saída. Nem lembrei de arrancar o barbante da calcinha e fui embora da clínica mais rápido do que o diabo fugindo da cruz.

Pude ouvir de longe uma voz que cruelmente disse:
– Até semana que vem!
E enquanto chorava, seguindo o caminho de volta pra casa, me senti uma idiota. Pelo menos uma idiota depilada. Paguei caro para sentir dor, humilhação, ódio. Era tanto sentimento ruim que com um pouquinho de elemento X, aposto que nasceria uma Menina Super Poderosa do inferno, ou seja, nasceria uma esteticista. Ou mamãe.

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