Lá onde mora o amor

08/08/2017
Postado por Denis Araujo

Lá onde mora o amor é assim, meio já gasto. Tem meia gasta, falta até um pé pra combinar com o outro. Algumas vezes tem cabelo embaraçado, tem barba por fazer ou os dois. Tem preguiça de levantar, tem vontade de ficar. De ficar um pouco mais, de desligar o despertador. De colocar no modo soneca com você, sem pressa de ir embora. Quem vai pro chuveiro primeiro? Trouxe toalha pra dois. Que chão gelado, nossa, a água está quente! Será que estamos atrasados?

Lá onde mora o amor é assim, meio sem campainha. Abre a porta às vezes sem pedir, mas pede licença na hora de entrar. Chega na cozinha mexendo nas panelas, no armário e no fogão. Pega a jarra de torradas, a manteiga na geladeira e passa o café quentinho. Puxa uma cadeira, às vezes senta no balcão. Às vezes senta no balcão e coloca os pés na cadeira. Veja só. Tem bom dia e o que que tem de bom? Tem reclamação, tem louça pra lavar. Hoje não é minha vez.

Lá onde mora o amor é assim, meio sem jeito. Tem gatos passeando pelo pé, tem pé tropeçando em gato e dois gatos enrolados. De enrolar apertado de pijama e pé descalço, de descascar a laranja e dividir a caneca do chá. Não importa. Lá onde mora o amor tem Netflix pra ver e rever a mesma coisa. Falta luz pra gente não ver nada e falta luz pra ver tudo ao mesmo tempo. Hoje bem que podia ser sábado outra vez. Num tem post de foto pro mundo ver. Tem post de amor pra gente sentir nosso mundo.

Lá onde mora o amor é assim, meio perfeito. Não falta muito. Não falta nada. Se pudesse faltar, faltaria. Mas se pudesse preencher, encheria até a tampa e transbordaria. É assim quando o chuveiro liga, é assim quando a lâmpada amarela do quarto pisca e o vizinho reclama. É intenso quando o lençol enrosca, a caixa de som aumenta, faz frio lá fora, faz calor aqui dentro. Dentro.

Lá onde mora o amor é assim, meio conhecido. Também desconhecido. Cada dia uma coisa nova. Cada dia um quê de você mais pertinho. Todo dia tem carinho. E todo dia tem saudade. Tem um cheiro bom de perfume. Tem uma cor azul com cinza, um rosa com amarelo, um doce, um salgado, uma fruta e um abraço. Abraço apertado. De deitar no ombro. De acolher. De amassar. De juntar e não desmontar. Sai de perto de mim, só quero ver seu rosto de novo daqui sete minutos, nem um minuto a mais! Tão bonito esse rosto.

Lá onde mora o amor é assim, meio-dia. E é meia noite também. E é a toda hora se pudéssemos. É um tal de nos querermos sem medida, é um tal de nos combinarmos e descombinarmos como vaso e planta em cima da mesa. E seriamos nós dois ali mesmo em cima da mesa, em cima do sofá, na escada ou na janela. Tem sorvete na ponta do seu nariz, tem açúcar na minha calça preferida.

Lá onde mora o amor é assim, um inteiro de nós dois. É morada de peito e alma, é beijo doce com gosto de cerveja amarga. É um livro de cabeceira, é um filme com pipoca e edredom. É moderno, é antigo, é novo, é brega e é forte. E é nosso. Tem briga, tem um que fala alto, outro que não fala nada. Mas é nosso. Nem mais meu do que seu. É nosso. Parece que já vi isso, mas não parece com nada que já tenha visto. É diferente.

O mais importante é que quero estar lá onde mora o amor. E se for com você, será ainda melhor. Não sei quanto tempo vai durar essa chave, mas enquanto abrir a porta será lá onde mora o amor.

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