Faltou ar

19/07/2016
Postado por Denis Araujo

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Ficar sem ar não é uma escolha. É uma reação natural do nosso corpo frente à vida. Muitas vezes é consequência de decisões anteriores, como a de subir em uma montanha-russa, mergulhar em uma piscina ou ficar na beira de um precipício. Pode ser uma resposta a grandes obstáculos que, de imediato, parecem improváveis de ultrapassar, mas aí a vida dá aquele sopro final e ufa! atravessamos, como no fim de uma corrida, como nas últimas braçadas em uma piscina. Falta ar quando a gente perde alguém. Como quando alguém se vai e o corpo parece não aguentar a ausência. Mas também falta ar quando alguém chega, como uma criança que chora ao nascer e o amor que acaba de acontecer.

E o ar falta quando acontece. Às vezes ele se prende, às vezes ele se esvai. O ar some antes de ou durante todas as melhores coisas da vida. Pelas lembranças, posso apostar que você mal respirou quando os olhos se encontraram, as bocas se tocaram e os braços se entrelaçaram. Certamente perdeu o ar naquele beijo de perder o ar, sem sufocar, intenso como deve ser. Respirou fundo e, provavelmente, suspirou naquele arrepio na nuca que sentiu no momento em que os lábios a tocaram na pele de seus ombros. Ficou ofegante naquele passeio de mãos pelo corpo à meia luz em seu quarto, aquele mesmo que sobe da ponta de seus joelhos e percorre toda a última noite maravilhosa que viveu.

Mas pause, fique aqui um pouco entre as vírgulas deste texto para respirar, é importante retomar o fôlego. Porque quando é pra acontecer, acontece. E aí as palavras vão embora, uma a uma. Vão ficando somente as vogais amarradas em vontade, sem consoantes desanimadas. Sobra desejo no verbo. De mãos dadas ficam as roupas no chão, jogadas à distância por dois que não se deixam, mas que vão se misturando como o ar que vai sobrando e que logo vai faltando. Vai se soltando, ainda temos ar aqui pra nós.

Você fecha os olhos por um instante porque parece que de olhos bem abertos não seria capaz de sentir aquilo que está por vir. O peito acelera, bate forte no ritmo doce de quem está para explodir. O ar que sai da sua boca diminui, trava, desaparece, fica invisível, imperceptível, escondido no prazer de quem não consegue se expressar, mas sente. Ah, sente! E sente muito. Sente demais. E de tanto sentir e se sentir, o ar volta, respirado, suspirado, envolvido, intenso, relaxado, calmo, renovado. Vem feito explosão, acalma feito carinho. Um abraço. E tudo isso em algumas frações de segundo, o suficiente para interromper todo seu mundo, o suficiente para significar que tudo aquilo é o que importa no momento e mais nada. Mais nada.

Porque algumas coisas na vida são mesmo de perder o ar. Como numa descida de montanha-russa, como estar no alto de um prédio e como saltar de para-quedas. Como se perder e, de repente, se encontrar. Como quando as luzes se apagam e falta o ar. Como quando a cama balança, o relógio pára e ficamos assim, suspirando. Como você e eu, assim neste encontro, no fim deste texto.

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