E aí, quando vai desencalhar?

05/08/2016
Postado por Convidado

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Agosto chegou e com ele não apenas as malfadadas Olimpíadas mas também o meu aniversário e a consciência de que metade do ano já passou –  o que provavelmente colabora para os meus sentimentos de “tá-tudo-errado-e-não-tô-legal” nesse momento (ou será inferno astral? Ele pode durar dois meses?). Odeio aniversário quase tanto quanto odeio Natal – coincidência que sejam as principais ocasiões em que as pessoas se reúnem para “comemorar”. Percebi nos últimos anos que esse é um sinônimo novo para “falar mal dos outros” e “encher o meu saco”. Mas eu divago.

Essa época sempre me lembra Bridget Jones. Me sinto a própria. Quando os 30 começam a assombrar com sua proximidade e toda ocasião se torna o momento perfeito pra alguém perguntar, inocentemente, “e aí, quando vai desencalhar?” – e você é obrigada a contar até 10 enquanto lembra que matar familiares com requintes de crueldade é crime com agravante… E até sua avó, entre os votos de felicidade e saúde, lhe deseja um príncipe encantado porque “já está passando do ponto, né, minha filha?”. Dá aquela vontade de ir pro cantinho me sentir uma goiaba estragando sem poluir o ambiente.

Nem sei se o que me choca mais é vovó falando das maravilhas do casamento ou o fato da digníssima senhora enquadrar saúde e marido na mesma categoria. O dia em que ela resolveu contar, com os olhinhos brilhando safadeza, como era bom se divertir com o saudoso esposo, e o quanto eu estava perdendo, ali, cultivando minha solteirice… Achei melhor encher a taça com mais vinho e ficar calada. Não vou contar pra minha avó semi-senil de 95 anos que eu SEI do que ela está falando – já é suficiente ter frustrado os sonhos de papai, que queria levar as filhas até o altar, tão puras quanto a alvura do vestido…

Três garrafas depois e eu continuava sem entender – e estou na mesma até hoje, para ser bem sincera – porque algumas pessoas dizem que você precisa de um namorado quando está particularmente mau humorada. Gente comprometida não tem dia ruim? A vida passa a ser um grande musical? Homem virou prozac?

Se homem, de fato, curasse mau humor não tinha recalcada baforando veneno por aí e, vamos combinar, isso seria uma grande mão na roda. Diminuiria consideravelmente o número de mal comidas vandalizando nosso dia. E mal comida, vale esclarecer, é um estado de espírito, não uma definição da vida sexual da delicada mocinha. Tem muita mal comida comprometida por aí.

O mais interessante é notar que ninguém diz que você precisa de amor, ou mesmo de uma paixão avassaladora. Até sua avó concorda que é só o poder do rala e rola mesmo, as endorfinas todas afogando seu cérebro em felicidade e contentamento.

Mas espera aí. As pessoas estão abordando o problema pelo ângulo errado. Você não precisa de um namorado, você precisa de um vibrador. Não é o papo, a cabeça boa, a companhia, a parceria, te fazer rir nos momentos inapropriados – nope, você precisa de um anti-estresse. Suar, ficar com as pernas tremendo, cansada e completamente destruída no final de uma sessão intensa, sabe? Então, duas horas na academia têm o mesmo efeito.

Ninguém parece particularmente interessado naquilo que você quer num relacionamento, ou mesmo se você quer um. O que importa é ter alguém do lado para chamar de seu. Amar essa criatura é irrelevante, o status nas redes sociais é o que conta. O “ser casal”. Deixar de ser um indivíduo e se tornar “nós”. Quem não conhece aquele casal que responde a todas as perguntas com “nós”?

– Maria, você gosta de Game of Thrones?
– Ah, nós adoramos! Já assistimos a todos os episódios e lemos os livros 137 vezes. Né, amor?

Ou então:

– João, você vai ao lançamento do livro da Marina?
– Poxa, não poderemos ir, mas na próxima estaremos lá, com certeza! Né, amor?

Isso, por algum motivo que me escapa, é sinal de sucesso não só na seara pessoal, mas na vida. Se você não virou “nós”, você destoa, você está errado, você fracassou. O povo te olha estranho e você começa a se sentir como personagem central num filme distópico: corre para as montanhas porque sair da norma é passível de morte!

E aí você faz exatamente o que o personagem central do filme distópico faz: besteira. No caso dele, é pra ter enredo, senão não tem trilogia multimilionária com atores medianamente talentosos. No seu caso, é só papel de trouxa mesmo. Você fica procurando a sua “metade”, o outro lado do seu “nós” e esquece que você é inteiro. Que você não precisa de alguém pra te fazer feliz, até porque se você não encontra essa alegria em você o outro não vai entregá-la embrulhada pra presente.

Você esquece que é uma pessoa completa e, desta forma, completamente responsável pela sua vida. Que as escolhas são suas e as consequências também. Que embarcar em canoas furadas só pra agradar as sensibilidades – e calar a boca – da prima do seu cunhado não pode ser objetivo de uma pessoa saudável.

Ah, mas querer alguém para dividir a vida é ruim, é isso que você está dizendo? Claro que não! É ótimo. E se você esbarrar com essa pessoa, vai fundo. Mas se não encontrar, também não tem problema. Não precisa ficar nessa sangria desatada para colocar hashtags do amor em todos os cantos. Você pode ser você, somente você, desacoplada e estar bem assim.

Você pode curtir ficar sozinha, ter seu tempo e seu espaço. Cozinhar para um ou para dez, passar a noite de sábado lendo ou chamar os amigos pra noitada (aqueles que estão solteiros ou que o “nós” permite sair à noite). Você pode tudo, na verdade. E não existem regras, a não ser aquelas que você define, porque esse jogo é só seu.

Confesso, é difícil navegar assim, na contramão do mundo. Mas é muito libertador saber que não devo nada a ninguém e que, no final do dia, a minha vida é minha e o vizinho não tem nada que ver com ela. Que estar “encalhada” ou “passando do ponto para casar” pode muito bem ser uma escolha consciente – e pessoal, diga-se – de quem não se mede pela régua da dependência emocional.

E, desvalorizadas que somos (as solteiras que não buscam desesperadamente), não temos quem nos socorra das situações constrangedoras que reuniões de pessoas com mais de 25 anos invariavelmente apresentam. Então, embora eu não possa ir à próxima ceia de Natal na casa daquela sua tia metida a cupido, eu deixo aqui o meu apoio, um mero aceno de cabeça, confirmando: você não está abandonada nessa ilha. E nela você pode até sair correndo pelada se quiser.

E eu quero só o que me faz bem, estampar um sorriso no rosto e assustar aqueles que não entendem que estar sozinha não é o mesmo que solidão. Um brinde!

Texto enviado pela convidada Anna Rocha.

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