Dia especial

07/06/2017
Postado por Bruna Paz

A nossa música, que já não era mais nossa e sim de um novo mundo ao qual não existíamos juntos, tocava ao fundo enquanto trocávamos os últimos olhares pesados.

Tínhamos tudo, você disse bem devagar, tínhamos exatamente tudo, repetiu mais para si do que para mim, ao dobrar as últimas peças de roupa que jaziam na cama.

Eu queria abraçar você, segurar seu corpo bem pertinho ao meu, tentar em um sopro de desespero científico, ao menos pela última vez, transformar nossos corpos em um.

Queria gritar para você todas as mínimas propostas que a meu ver o fariam ficar, mas a voz, aquele som rouco que eu trazia no peito toda vez que esse se afogava em lágrimas, não saía nem por decreto, muito menos por salvação.

Vi você arrastar sua mala pelo corredor apertado, xingando os pontos da parede que passaram a serem incômodos em sua vida, gritando com os nossos quadros que não passavam mais de memórias descartadas e principalmente, pisando firme pelo piso que não já não o convidava mais para ser palco de suas danças imaginárias.

Fiquei entre o desejo de implorar para que mudássemos juntos, de que ouvíssemos suas novas músicas grudados, ou simplesmente, para que dividíssemos todos os mapas territoriais que você gostaria de conquistar.

Mas eu sabia, no fundo, eu sabia que não era a casa, o gato, o quarto, o sofá. Era eu. Simplesmente eu. Que em total desalinho, não cativei em você o desejo insano de se costurar em mim ou de transformar nossos dias em um filme eterno. Fui eu, que na ansiedade do para sempre, embalei você em uma jornada a contragosto.

Por isso, enquanto você batia os pés no tapete de entrada, ensaiando um adeus doloroso, repleto de pena. Vesti minha capa de orgulho e fechei a porta sem sequer salpicar um beijo no ar.

Tem coisas que a gente faz para estancar o mais rápido possível a dor em nosso peito. Deixar você partir para viver o que quer achasse digno de você foi uma delas e foi um ato de salvação. E pode ter a certeza, que quem se salvou nessa história toda, foi eu.

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