Das pequenas coisas

11/04/2017
Postado por Denis Araujo

Acordei hoje cedo com o cheiro do café recém passado, aquele aroma de pão quente com o sol refletindo no prato e umas risadas. Na mesa tinham frutas, na cadeira parecia ser alguém especial. A pia com duas taças marcadas de vinho e a louça cheia de molho de tomate decoravam o cenário – sinal de que algo bem gostoso tinha acontecido na última noite. Acho que tudo isso seria muito bom se fosse na minha cozinha, mas fico pensando que meu vizinho realmente tem a sorte de ter isso hoje. A janela do meu quarto dá pra essa vista da vida dele e, de repente, fiquei com vontade de trocar aquela pizza amanhecida por mãos dadas na cama sem pressa de levantar.

Abro os olhos com mais calma e observo o travesseiro ao lado. Tem alguém dormindo ali e minha ressaca não me permite lembrar de muita coisa. Talvez o nome, a boca, a pele, a tatuagem na parte da frente da coxa. Uau, que linda. Mas aquilo não tem gosto de pão quente e café novo. Não tem. Respiro fundo. Realmente não sei se meu vizinho é feliz – a gente sempre acha que a grama do vizinho é mais verde sem nem saber o que se passa por trás das paredes alheias.

Mas é que me deu uma saudade de rir sem motivo do cabelo embaraçado de alguém e ajudar a tirar os nós com as pontas dos dedos. Deu saudade de tocar o rosto de alguém e sentir aquele choque de pele que conecta, de arrancar aquele sorriso de quem sabe o que está vivendo. Sinto falta dos pequenos gestos, de evitar falar logo cedo porque ninguém merece bafo amanhecido, de planejar o que farei no domingo de manhã não por whatsapp, mas sim, com aquela que veste minha camiseta e anda pela casa só de calcinha sem se preocupar. Sem ter pressa de ir embora.

Enquanto a vejo sentando na cama e calçando as botas (ela dormiu praticamente vestida com a mesma roupa de ontem), penso no quanto sinto falta da parte simples e leve de se estar com alguém. Das conversas sem amarras, dos abraços que confortam, das piadas sem graça que se tornam engraçadas num piscar de olhos. Sinto falta da troca, da confiança e da sintonia. Sinto falta do sexo de verdade, daquele faz a gente transbordar de verdade, que nos faz sentir de verdade e torna qualquer verdade parecer mentira aos ouvidos. Não que sexo sem compromisso seja ruim, mas sabe quando parece que falta algo?

Um minuto, preciso abrir a porta. Ela disse que não quer tomar café e que tem um compromisso daqui a pouco. Tudo bem, acho que não vamos sentir falta um do outro mesmo. Não vou sentir saudade dela. Não vamos nos despedir com vontade de nos vermos logo. É capaz que nunca mais a gente se encontre, que o trabalho tenha preenchido a agenda e que eu faça uma viagem qualquer. É a famosa correria, você sabe né?

Por isso hoje agradeço o cheiro bom de café que vem do vizinho. Ele não me inspirou a sair atrás de alguém, é verdade, mas ao menos me lembrou que hoje ainda é terça-feira e preciso levantar cedo.

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