Cagando no motel

22/03/2015
Postado por Marina Barbieri

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Era uma noite de quinta, daquelas que a gente não espera nada, quando o boy me ligou.

– Vamos dar uma saidinha?

Eu sabia muito bem o que ele queria dizer com isso. E sabia muito bem o que ele queria com isso também.

Bem, não estava fazendo nada. Então… Porque não?
Aceitei, e às 8 em ponto o carro do boy já estava na frente da minha garagem. Óbvio que eu ainda estava de toalha na cabeça e creme na cara. Mas como minha mãe sempre diz: Quando o cara quer comer, e sabe que vai comer, nada o aborrece. (Minha mãe realmente diz isso!)

Sem pressa, terminei de me arrumar e finalmente saímos. Fomos primeiro num restaurante que já era velho conhecido meu. Jantar agradável, com a companhia perfeita. Sabe, ele era um cara que eu estava realmente interessada, diga-se de passagem, isso é difícil. Sempre acho as pessoas um tanto quanto “mais-ou-menos”, mas ele não. Ele era mais!

Era como se o carro estivesse no piloto automático, depois que o jantar acabou, ninguém precisou falar nada, quando vimos, o carro já estava entrando no Motel.
Ele escolheu um quarto com vaga privativa. Prefiro, evita o momento de olhar para a recepcionista, que você sabe que interiormente te olha e diz: “Háá, alguém vai se dar bem!”

Enquanto subíamos as escadinhas, sentia que a noite ia ser boa. Mas além disso, também sentia outra coisa. E essa coisa era uma enorme e imensa vontade de cagar.

Inferno! Tinha que ser ali? Naquela hora? Naquele momento? Com aquele cara?

Entramos no quarto, e fui logo dando uma espiadinha ao banheiro. Não entendo porque quarto de Motel às vezes possui paredes de vidro entre a cama e o banheiro. Não é visualmente agradável, e nem a acústica ajuda. Ainda mais na minha atual situação.

Para a minha sorte, o banheiro era afastado da cama, e com uma bela e grande parede branca dividindo. Joguei o boy na cama, liguei a rádio na estação de sex music que só os Motéis tem, e quando ele já achava que a brincadeira ia começar, disse que iria no banheiro para voltar bem gostosa para ele.

Homens são facilmente enganáveis. Qualquer coisa que você fale para eles que contenha “gostosa” ou “deliciosa”, é imediatamente aceita sem contestação alguma.

Não costumo demorar muito no banheiro, e ainda bem isso não seria um problema. Fiz o que tinha que fazer, e fui dar descarga.

A descarga não funcionou!

Tentei mais uma, duas, três… vinte e sete… quarenta e cinco vezes. É, definitivamente a descarga não estava funcionando.
Ok, e agora? Quais opções eu tinha?

a) Fazer a noiva: Lotar a privada de papel higiênico.
b) Dar um grito e falar “Nossa, deixaram um presente na privada para a gente” e sair rindo.
c) Não fazer nada, e torcer para ele não ir ao banheiro.

Enquanto pensava qual seria a melhor escolha, notei um buraco, uma entrada (ou saída, vai saber) em cima da privada.
Era um buraco, parecia uma saída de ar, e aposto que me salvaria.

Catei a evidencia do ocorrido com bastante papel higiênico e desovei tudo ali. Atolei o mais fundo possível, e saí linda e leve do banheiro.

A noite foi maravilhosa, como já era esperado, mas como acordávamos cedo na sexta-feira, não nos demoramos muito.

Vestimos nossas roupas, e descemos para a garagem. Quando já estava entrando no carro, ele aponta para o capô e exclama:
– Que isso???

Em poucos segundos deduzi tudo:

Merda! Era isso. Exatamente isso!

O tal buraquinho dava para a garagem, mais precisamente para o carro do homem dos meus sonhos, e que agora encontrava-se todo cagado. (o carro, não o homem!)

Merda! Merda! Merda! Mil vezes merda!

– Não acredito. É bosta!
– Calma, deve ter sido algum gato, não sei. Vamos embora, eu limpo.
– Você limpa? Tá louca? Você não vai sujar suas mãos.
– Não esquenta. A noite foi tão boa, né? Deixa isso pra lá.
– O meu carro foi cagado e você quer que eu deixe pra lá?
– …
– Vou chamar o gerente dessa joça.
O QUE??

Chamar o gerente não. Aquilo já estava indo longe demais. Sem gerente. Pelo amor de Deus. Sem chamar o gerente!

– Não precisa. Vai se estressar por causa de um coco?
– Vou! Por causa de um coco em cima do meu carro!!

É, não teve jeito, ele realmente chamou o gerente.

Eu queria morrer. Juro que eu queria ter um ataque e cair durinha ali. Em cima do coco!
O gerente chegou e já levou umas cinco pedradas do boy. Ele estava furioso. Furiosíssimo.

– Não posso admitir que uma coisa dessas aconteça. O meu carro está cagado. Completamente cagado!
– Mas isso é impossível, ninguém entrou aqui.

E lá se foram 20 agonizantes minutos de uma discussão que eu sabia que não chegaria a ponto nenhum. Até que certa hora, meus ossos gelaram. O boy olhou para cima e disse:

– Ali ó, aquela saída dá diretamente para o meu carro. Quem tiver feito isso, fez por ali.
– Mas senhor, aquela saída é do banheiro da suíte de vocês.
– Tá querendo dizer que eu caguei no meu próprio carro?
– De modo algum. Estou sem entender a situação, tanto quanto vocês.

Não aguentava mais aquela situação. Eu queria chorar, eu queria rir, eu queria gritar, eu queria sumir dali a nunca mais voltar. Como uma espinha sendo estourada, eu explodi:

FUI EU!!!

Recebi os olhares mais incrédulos que alguém poderia receber. Meu agora ex-futuro-qualquer-coisa me olhava sem conseguir acreditar em tal confissão. O gerente, safado, deu uma risadinha e se retirou, deixando-me na situação mais merda da minha vida. Literalmente.

Entramos no carro ainda sujo de merda, e fomos embora sem trocar uma palavra.
Passamos o caminho inteiro no silêncio absoluto.Como sempre cavalheiro, ele me deixou em casa e depois seguiu seu caminho.

Vi o homem da minha vida virando a esquina, com seu carro cagado, e sabia ali, que nunca mais o veria.

Alguns anos já se passaram desde essa história, e eu nunca mais tive notícias dele.

Poxa, tanto rancor só por causa de uma cagadinha?


Esse texto, apesar de já ter rodado tanto a Internet, é de minha autoria e foi escrito para o meu antigo blog e livro.

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