As coisas são como tem que ser

17/06/2016
Postado por Marina Barbieri

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Já passei muito tempo odiando o fato das coisas terem sido como foram.
Odiei a mim mesma e a você – principalmente a você – por ter desistido e ido embora.
Odiei o tempo por não ter encaixado tão bem quanto nossos corpos encaixavam.
Odiei as memórias, os beijos, as músicas, os dias bonitos, os filmes e o que mais me lembrasse você.
E no final acabei odiando tudo. Porque tudo me lembrava você.

É tão deprimente o fim de uma grande história. Começa no amor e termina no ódio. Sempre.
Talvez seja porque grandes histórias necessitem de grandes sentimentos.
Já viu sentimento pequeno construir alguma coisa?
Mas os grandes… Ah… Esses sim constroem.
E vou te contar uma coisa: eles também destroem.

Mas não vamos falar de destruição.
Não hoje.
Vamos falar do exato oposto.
Vamos falar de reconstrução.
Da minha reconstrução.

Eu cansei de odiar as coisas. Eu cansei de sentir pena de mim mesma.
Eu cansei de buscar respostas que não existem.
Eu cansei de pensar como teria sido quando de fato já foi.
Eu cansei de não fazer nada por mim mesma.
E você quer saber? Eu não odeio mais.

Não odeio o dia em que você me deu o primeiro beijo na posição mais desconfortável do mundo e mesmo assim eu não me mexi pra não estragar o momento.
Eu não odeio porque sem esse dia eu nunca saberia até onde vai a minha própria capacidade de amar.
Hoje eu sei. Ela vai até você.

Não odeio os olhares penetrantes e gelados que você me dava depois de cada beijo.
Eu não odeio porque sem eles eu não teria tido a audácia de me entregar cada vez mais.
Sempre gostei do difícil. E você era o impossível.

Não odeio as minhas amigas me perguntando entusiasmadas sobre você, como se estivéssemos prestes a encarnar Romeu e Julieta.
Eu não odeio porque sem a empolgação delas não teria tido tanta graça.
Era bem mais fácil acreditar em nós para quem estava de fora.

Não odeio as velhas fotos que esfregam na minha cara os momentos que nunca mais teremos.
Eu não odeio porque elas são a prova de que aqueles momentos um dia aconteceram.
Aprendi a me contentar com o que tive ao invés de lamentar o que não terei.

Não odeio a sua voz macia que me dizia mentiras mesmo sabendo que uma parte de mim gostava de acreditar nelas.
Eu não odeio porque a lembrança dela é o que me afasta de todos os outros possíveis você.
Qualquer coisa e qualquer um que me remeta a você faz soar um alarme de perigo dentro de mim. E eu fujo.

Não odeio o olhar que você me deu na última vez em que nos vimos quando você já sabia que aquela seria a última vez.
Eu não odeio porque senão fosse por esse olhar, tão explícito e direto, eu ainda estaria te esperando voltar.
O fim foi o nosso momento mais verdadeiro. E eu sempre preferi as verdades. Até as dolorosas.

Não odeio nada que tenha contribuído para a história que hoje quero esquecer.
Eu não odeio porque por mais que machuque hoje, ontem valeu a pena. Por mais que eu não queira mais, um dia eu já quis. Por mais triste que tenha sido o fim, o durante foi bonito. E é isso o que importa. Teve beleza. Ela só não durou tanto quanto eu deseja. Mas ela existiu.

Eu não amaldiçoo a vida, os deuses, o destino, ou qualquer outro acaso que as pessoas normalmente culpam pelas suas decepções.
Eu não desejo que tivesse sido diferente.
Eu não sonho com um final alternativo onde a gente termina junto com 2 filhos, casa própria e viagem marcada pro final do ano.
Eu não gasto horas do meu dia me perguntando como teria sido se você tivesse ficado.
Porque hoje eu entendo.
As coisas são como tem que ser.

E não há nada de errado com a resignação.
Na verdade, ela é a única saída para o fim das melhores histórias.
Quando os créditos sobem na tela
Não há outra opção senão levantar do cinema e ir embora.

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