Aquela última noite que você não deveria dar

16/08/2016
Postado por Denis Araujo

_MG_2775_1_denis

“Foi bom pra você?”, me perguntou numa mistura de cansaço, suor e êxtase. Seus olhos miravam os meus, mas a senti distante. Não sabia nem o que dizer, odiava esse tipo de pergunta. “Foi ótimo!”, respondi.

“Foi diferente!”, pensei, porque a senti diferente. Diferente na vontade em ser diferente, em fazer a diferença naquela noite, depois de tantas outras indiferentes. Em todo esse tempo, nunca me perguntou esse tipo de coisa. Respirou fundo e aí, então, me abraçou. Se aninhou no meu peito, como se quisesse ficar guardada entre as batidas do meu coração e o toque da minha pele contra seu rosto. Me abraçou forte, como se quisesse dizer algo.

Mas não disse. A sensação era boa demais para ser atrapalhada com qualquer palavra. Ficamos ali, em silêncio, grudados como quem não quer se soltar, à meia luz do meu quarto e às notas do John Mayer que tanto gostávamos de ouvir quando dormíamos juntos. Era estranho, confesso. Às vezes bom demais para ser verdade. Mas estava acontecendo, estávamos ali juntos, como se nada mais importasse.

Nos colocamos a falar da vida. Foram horas de risadas, entre lembranças dos porres das festas da faculdade, ou de quando nos vestíamos tão bem para ir no casamento dos amigos. Saudades daquela viagem ao exterior, daquele show de rock inesquecível, em que tínhamos lama até os joelhos por conta da enorme tempestade que caíra horas antes. O sorriso estava fácil, leve e solto.

Mas aí falamos da vida. Os risos murcharam como flor que desmancha num vaso mal cuidado. Foram minutos em silêncio após tocarmos com os dedos no futuro. Um futuro em que nada se enxergava, após rirmos de um passado tão colorido. Tantas dúvidas. O que éramos, afinal? Fora destas paredes nunca nos entendemos, mas aqui dentro nos compreendemos de um jeito único. Então, por que tantas perguntas? Ali na cama, sem roupas, parecíamos ter todas as respostas, entrelaçados nos bons momentos, no toque de sua perna repousada sobre a minha e do meu cabelo embaraçado com o dela. Não era bom, de verdade?

Acho que demorei para me dar conta. “Foi bom pra você?”, perguntou ontem, enquanto seus dedos deslizavam sobre os meus e adormecia. E hoje, quando acordei com o vazio ao meu lado e apenas uma carta escrita em cima do travesseiro, entendi o que ela quis dizer, na imaturidade de quem traduziu com caneta e papel aquilo que não soube falar durante toda a madrugada. Resolveu provar de nós mais uma vez antes de ir embora.

Naquela última noite que ela resolveu dar para nós, fiquei entre a delícia do prazer e a dor da confusão, porque há momentos em que o fim para um é só o começo para o outro.

Os textos deste site pertencem exclusivamente aos seus autores e estão protegidos por copyright. É proibida a cópia integral ou parcial do seu conteúdo, sem a autorização prévia do autor, mesmo que citando a fonte.

Deixe seu comentário: