Antes que seja tarde

18/04/2017
Postado por Denis Araujo

Antes que seja tarde, amarre os sapatos. Certifique-se de que tudo está dentro da mochila. Coloque uma blusa pois vai esfriar e não se esqueça do guarda-chuva.

Antes que seja tarde, apague a luz de casa antes de sair e feche bem a porta. Respire fundo, ande pela calçada molhada e se apresse para não perder o ônibus. Você não vai querer correr atrás dele.

Antes que seja tarde, tire da bolsa aquele livro que deixou de ler ontem. Remova o marcador de páginas na página setenta e dois, leia o parágrafo que deixou grifado com caneta azul. Dê aquele sorriso de canto de boca que só você sabe o porquê. E você sabe, não sabe?

Antes que seja tarde, desça no ponto combinado. Verifique o nome da rua para ter certeza. Você já esteve aqui antes. Você sabe a porta. É aquela vermelha, entre os muros brancos. É aquele portão cheio de grades com portaria e interfone antigos. Apartamento quarenta e três, do bloco com flores amarelas na porta.

Antes que seja tarde, percorra todo o saguão do prédio. Já não chove mais lá fora, já não chove mais aqui dentro. O elevador é logo ali, passando as flores amarelas da entrada. O de serviço serve, mas é o social que você quer.

Antes que seja tarde, ajeite a franja que lhe cai sobre a testa. Se olhe no espelho, você é maravilhosa. Teus olhos te marcam no reflexo enquanto o elevador sobe ao quarto andar. Sorria.

Antes que seja tarde, toque a campainha. Pise no capacho divertido que paira em frente a porta de madeira escura. É a última porta do corredor do lado esquerdo. De outras vezes, de tantas vezes, de algumas vezes. De vezes mais sim do que não. Alguns segundos de demora, parece que o coração vai sair pela boca. Deixe a porta abrir.

Antes que seja tarde, beije minha boca. Morda meus lábios, ponha minha língua na sua, mas feche os olhos antes disso. Me abraça forte, enrole teus braços atrás das minhas costas. Enquanto isso, minhas mãos percorrem tua nuca e te procuram como se pudesse entrar dentro de você ali mesmo, de porta aberta e peito escancarado.

Antes que seja tarde, largue a bolsa no canto. Tire essa bolsa, o casaco que lhe pesa os ombros, o livro que veio lendo, o guarda-chuva molhado, seus medos e suas frustrações. Deixe tudo ali do lado. Só não fique aí de lado, vem pra cima de mim. Deixa que eu tiro sua roupa, você já tirou a minha mesmo.

Antes que seja tarde, a cama está logo ali, mas pra quê? O sofá está mais perto. Deixa meu peito sentir o teu, deixa tua pele se enrolar na minha, deixa que o tempo pare neste instante que nada mais parece significar coisa alguma. Que minha barba encontre sua pele, que seus cabelos ofusquem minha visão.

Antes que seja tarde, me puxe pra perto de você. Não, não se segure. Não precisa. Tire a mão da boca, quero te ouvir. Quero saber enquanto puxo seu cabelo. E você sabe. Eu sei. Nós sabemos. É aqui.

Antes que seja tarde, perca o ar. E perca o ar mais uma vez.

Antes que seja tarde, sorria no meu sorriso.

E se já for tarde, podemos repetir tudo amanhã.

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