A última lágrima

15/05/2017
Postado por Mia

Então a porta se fecha e ele se vai.
Tão rápido como chegou.
Resta uma lágrima, a cair pelo amor do momento, pelo prazer compartilhado, pela saudade que virá. Esta lágrima escondida a mostrar a dor de vê-lo partir sem saber o que levou.
Apenas uma lágrima.

O silêncio e a escuridão a confundem.
Não há provas de que ele esteve ali.
Há apenas o lençol amarrotado, a toalha molhada, mas ela se desespera, pode ser de qualquer um.
Então fecha os olhos e sente.
O que a tanto faz sonhar, o que a tanto faz lembrar… seu cheiro.
O cheiro que ela reverencia, o cheiro de que tanto necessita, seu cheiro está em todo lugar, na cama, no ar, nas paredes, em seu corpo, em sua alma.
Cheiro esse que a faz cambalear toda vez que inala, que faz o seu íntimo ferver, seu coração bater.
O cheiro que a faz ter certeza do que não tem e do que nunca terá, que abrange o medo do que o futuro dirá.

Ah, ele esteve ali, não há dúvidas.
Ela se acalma, mas ainda há o que temer.
Quanto valem esses momentos?
Que tão rápido passam restando o erro, o lamento?
Valem a dor da despedida?
O vazio do depois?
A loucura da inconsistência?
Ela se pergunta e vai além.

Ele não a pertence, mas naquele instante, como é bom acreditar.
“Eu sou seu”, ele diz.
As verdades se confundem, e ela realmente esquece que ele mente.
“Todo meu!” Ela repete.
“Como é bom te ter pra mim.” Os olhos se encontram cúmplices.
Não é verdade, mas não é preciso revelar.
Outra lágrima escorre de seus olhos ao lembrar.
“Eu sou sua.” Ela diz.
Ele sorri.
Será que ele sabe?

Em cada investida ele mostra sua intenção, de fazê-la escrava, de fazê-la sua.
Em cada olhar ele a intima: você é minha.
Em cada beijo ele a domina.
Em cada gesto ele comprova já saber a verdade.
Mas ela recua.
Toda vez que seus olhos a denunciam, ela lança palavras a desconcerta-lo.

A confiança é quebrada, ele desvia o olhar.
Ela o desafia, uma pitada de dúvida surge no ar.
“Consegui”. Ela vibra.
Ele nunca saberá.
Mas a cada novo passo de seu amante, a cada novo gesto de amor falso ela novamente se entrega.

Como não saber? Seu nome está marcado em cada parte do seu corpo e tatuado em seu coração.
“Eu sou dele e que assim seja.” Ela suspira e novamente fecha os olhos.
Amantes, apenas amantes não exclusivos.
Ela se conforma, sente seu cheiro uma última vez antes de adormecer.
Em sonhos, deseja somente que o próximo encontro chegue antes da última lágrima.

Os textos deste site pertencem exclusivamente aos seus autores e estão protegidos por copyright. É proibida a cópia integral ou parcial do seu conteúdo, sem a autorização prévia do autor, mesmo que citando a fonte.

Deixe seu comentário: