A queda

04/11/2014
Postado por Marina Barbieri

Em qualquer listinha de situações inesquecíveis, a primeira desilusão amorosa sempre figura o topo. É impossível se esquecer da primeira vez que se tem o coração destroçado em 27 pedacinhos. Eu lembro da minha, e tenho certeza que você também se lembra da sua. Pela ordem natural da vida, as desilusões que se seguem a partir da primeira, deveriam ser mais fáceis e menos duras, mas sabemos que não é assim. A teoria do aprendizado e do preparo se vai no momento em que uma nova dor chega. Dói como se fosse a primeira vez, dói ainda mais forte talvez justamente por não ser a primeira vez. E a cada nova dor, você sofre em dobro, em triplo. Cada novo “não” te remete aos “não” passados e não completamente digeridos. Superar uma desilusão é ter que superar todas as desilusões da vida ao mesmo tempo.

Amar é estar constantemente em queda livre e torcer para o chão nunca chegar. Não existe amor sem entrega. Não existe amor sem risco. Ou você ama completamente, ou você não ama nada. Não existe meio termo quando se trata de amor. É tudo ou nada. Essa é a primeira regra do amor. E é por isso que tantas pessoas permanecem tão receosas em amar. Uma vez que você se joga, não existe mais volta. Ou você se joga com fé, com medo, e com todo o resto, ou permanece no topo se agarrando à ressentimentos passados.

Cair faz bem, já dizia o comercial de sabão em pó. Se espatifar também, diz a experiência que ecoa em qualquer um que tenha se aventurado em se jogar no precipício do amor. É a tal da dor que desatina sem doer que Camões tanto tentou te ensinar.

Quebrar a cara é subestimado por aqueles que se esquecem da liberdade que vem depois. Desilusão é o acordar de algo que só existia para você, de algo que talvez nunca tenha existido ou que existiu um dia mas hoje já não existe mais. É o despertar da Matrix. É encarar de frente a única verdade que você tanto se negou em enxergar.

Ninguém quer viver de mentiras, mas poucos são os que possuem a coragem de lidar com as verdades por pior que sejam. É difícil, mas é necessário. Te destrói por completo, mas é só depois do abalo que você tem em mãos a oportunidade de se reconstruir. E dessa vez ainda melhor. Ainda mais forte. Ainda mais verdadeiro.

Toda desilusão traz consigo algo de bom. Talvez não de imediato, mas um dia você se pega pensando numa terça nublada que está bem melhor do que antes. Quando passa, você agradece. Quando acaba, você valoriza. E em casos ideais, você até esquece. Você só para de odiar o seu passado, quando abre os embrulhos do presente e se dá conta de que o novo é o que você sempre quis mas não sabia.

Com experiência no assunto, digo do fundo do meu coração, que agradeço aos que me levaram à lama e me deixaram lá. Descobri sozinha o caminho de volta, e por esse caminho descobri quem eu sou, descobri o que eu quero e principalmente o que não quero. Tive a oportunidade de me encarar no espelho da verdade e mesmo suja, cansada, nua e vulnerável, me achei mais linda do que nunca. Jogar-se de volta à vida é uma graça. Nunca uma maldição. De todas as desilusões da minha vida, só ficou o que realmente valia a pena: mais de mim mesma.

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